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A saga da literatura

Em “O mundo da escrita”, o historiador Martin Puchner demonstra que a civilização avançou por causa da união das grandes narrativas com as invençõs. Artigo de Luís Antônio Giron na ISTO É que está nas bancas.

Nos últimos 4 mil anos, da epopeia suméria “Gilgamesh”, escrita em tabletes de argila, à série juvenil “Harry Potter”, disponível em tablets e outras plataformas digitais, a literatura passou por mudanças à medida que incorporou as invenções. O professor de Literatura Comparada da Universidade Harvard Martin Puchner apresenta uma abordagem inovadora para o tema no livro “O mundo da escrita – como a literatura transformou a civilização” (Companhia das Letras). A literatura para ele não somente refletiu os fatos, como foi essencial para alterá-los. Os 16 capítulos de sua obra compõem uma história da literatura ao avesso dos argumentos habituais.

“Foi apenas quando a narração cruzou com a escrita que a literatura nasceu”, diz Puchner. O alfabeto, papiro, o papel, o livro, impressão e o hipertexto via internet potencializaram-na de tal forma que foi capaz de revolucionar o comportamento,a religião, a política, as artes e o conhecimento. A ponto de o planeta ter-se transformado em um imenso livro.

Puchner divide em quatro etapas esse mundo-escrita. A primeira marca a domínio dos códigos da escrita pelos escribas egípcios e sumérios, respectivamente hieroglífico e cuneiforme, que os guardavam em segredo para que seus mentores, os sacerdotes, comandassem populações analfabetas.

Moinhos mecânicos

Eles foram denunciados na fase posterior por gurus filosóficos como Buda, Sócrates e Jesus. A terceira etapa assinala o nascimento dos autores, impulsionados pelas novas tecnologias. Por fim, a prensa de Gutenberg e a automação da produção de livros intensificaram a alfabetização e o consumo literário em massa. O resultado, afirma, “é um mundo no qual esperamos que as religiões se baseiem em livros e que nações se fundam em textos, um mundo em que conservarmos rotineiramente com vozes do passado e imaginamos que podemos nos dirigir aos leitores do futuro”.

Investigações desse gênero em geral se dão em arquivos e bibliotecas reais e virtuais. Em vez de ficar sentado, Puchner fez expedições aos lugares em que as invenções e textos marcantes surgiram. Passeou as ruínas de Troia – palco da “Ilíada” de Homero – e Chiapas, no sul do México, onde foi concebida epopeia maia “Popol Vuh”, numa segunda invenção da escrita. “Percorrendo as ruínas da grande Biblioteca de Pérgamo, na Turquia, refleti sobre como o pergaminho havia sido inventado ali”, afirma. “Fiquei maravilhado com as bibliotecas de pedra da China, onde os imperadores queriam tornar permanente o seu cânone de literatura”.

O historiador tanto viajou ao ler na tela do computador como leu viajando, in loco. Assim, aprendeu que a literatura impele o leitor a agir. Descobriu que Alexandre, o Grande, lia à noite um rolo de papiro da “Ilíada” comentado por seu preceptor, Aristóteles. Inspirado nas táticas de Aquiles, o monarca macedônio conquistou e helenizou a maior parte do mundo conhecido, do Mediterrâneo à Báctria, atual Afeganistão. Também fundou a Biblioteca de Alexandria, a maior do mundo antigo, e recolheu fábulas que, na Bagdá medieval (então centro da indústria do papel), foram agregadas às “Mil e Uma Noites”. Da mesma forma, logo que os livros impressos se tornaram produtos, Cervantes criou “Dom Quixote”, o primeiro romance moderno,interpolando contos, à maneira dos contos árabes. Ele o fez com dois objetivos, de acordo com Puchner: destruir a popularidade dos romances de cavalaria e denunciar a supremacia dos impressores e dos moinhos de vento, então maravilhas da automação, contra os quais o leitor compulsivo Dom Quixote luta, tomando-os por gigantes. De quatro milênios para cá, os livros continuam a ameaçar, inspirar e enlouquecer a

As palavras

(Octavio Paz)
Girar em torno delas,
virá-las pela cauda (guinchem, putas),
chicoteá-las,
dar-lhes açucar na boca, às renitentes,
inflá-las, globos, furá-las,
chupar-lhes sangue e medula,
secá-las,
capá-las,
cobri-las, galo, galante,
torcer-lhes o gasnete, cozinheiro,
depená-las, touro,
bois, arrastá-las,
fazer, poeta,
fazer com que engulam todas as suas palavras.

.

Las palabras
Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras.

– Octavio Paz, em “Transblanco: em Torno a Blanco de Octavio Paz”.

[tradução Haroldo de Campos]

. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

§

Inventário de uma desilusão

Wilson Bueno publicou no jornal Estado de SP em 2010, pouco antes de morrer, sobre meu livro Ai.

Depois de O Guardador de Fantasmas, do inventivo O Último Dia de Cabeza de Vaca e da alta voltagem de Todo Sangue, Fábio Campana retoma, com o inquietante romance Ai – desde já uma das melhores ficções publicadas no Brasil neste 2007 -, o seu inventário de sombra e desassossego. Para quem, como Luís, protagonista e narrador do livro, inexiste o presente e muito menos o futuro, há que se pensar o passado feito aqueles que, só pela via da memória, alcançam recompor uma vida em pedaços. Ao final e ao cabo, possivelmente reste alguma coisa para além das perdidas ilusões.

Daí a obsessão pelo ido e o vivido neste autêntico “romance de formação” (o nunca assaz louvado bildenroman) com que Campana nos surpreende ainda outra vez, senhor de seu ofício e da engenhosidade não pequena que toda prosa digna deste nome pede e reclama. A partir de um entrecho aparentemente simples, o que temos em Ai são os retornos do narrador Luís à casa paterna, em Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira, no exato cenário onde o passado vige feito um bicho que resiste ao andado das horas. Triunfa ali, como não poderia ser de outro modo, o passado do passado e outro passado ainda, mais remoto, o dos primórdios da fundação da cidade, 18 anos depois do fim da Guerra do Paraguai, por homens broncos e decididos, mas capazes ao menos de uma “ponte” com o futuro. Ao pobre-diabo Luís, professor de História às voltas com o eterno adiamento de uma tese acadêmica, nem isso.

E se ele, o futuro, existiu um dia, já nasceu bichado sob o sonho evangélico de um mundo mais justo e mais equânime, pelo viés da utopia socialista que animou o melhor da geração que aí está, sexagenária ou quase – o mais das vezes, frustra e vã. Não, senhores, não pensem encontrar neste livro quase nauseante – pela densidade que a tudo comove e petrifica -, uma fresta que seja na direção da esperança. Não há esperança para quem perdeu de vez o futuro. Na casa da infância, além do pai, tão dúbio quanto ausente, e da mãe protetora do legado espiritual da família, mesmo que isso custe varrer sob o tapete as mais indizíveis sujeiras morais de lúbricos parentes, como sói acontecer nos clãs pequeno-burgueses de hoje ou de outrora, Luís bate de frente com as origens. O irmão Carlos, um influente assessor de políticos nascidos das cinzas da resistência à ditadura militar brasileira, tem poder e prestígio nas mãos, mas não logrou igualmente se desvencilhar da gênese, sempre primeva e desde sempre corrompida.

Também na casa de Foz encontram-se os diários do avô Vithorino Tharless de Anforena, que a mãe, ciosa dos pertences da família, vigia atenta e não permite que da casa saia. Ali foi escrito num espanhol arrevesado e difícil e ali há de ficar até o último escombro ou a derradeira traça. O atormentado Luís o revisita, a cada vez, tentando encontrar, secretamente, naquelas páginas comidas pelo tempo, a razão de tudo. Desnecessário lembrar que também nas anotações de Don Vithorino as desrazões do clã modesto jamais serão encontradas. Proposital ou não, o fato é que o narrador deste quase aflitivo inventário romanesco se chama Luís. Em nada diferente daquele outro Luís, o da Silva, que por amor à frívola Marina, mata Julião Tavares, no clássico Angústia, de Graciliano Ramos. O Luís, de Fábio Campana, não fica atrás da torturada e torturante personagem nordestina. Ainda que Marta seja só mais uma… Em ambos os casos, o mundo estreitou-se consideravelmente. E, sem coragem para o suicídio, ambos roem-se a si mesmos com igual, paciente e obstinada volúpia.

Luís e Carlos. O tema dos dois irmãos é, sabemos, um tema recorrente da grande tradição literária. Entre nós, o exemplo mais canônico (ou canonizado…) é Esaú e Jacó, de Machado de Assis e, mais recentemente, Dois Irmãos, do sempre instigante Milton Hatoum. Agora, Fábio Campana, com Ai, mexe de novo nas úlceras incicatrizáveis dessas relações viciadas pela raiz – pólos antagônicos de uma mesma sonâmbula origem. Se Luís autoriza a si mesmo uma visão descrente da vida, afim com o niilismo existencialista de um Sartre ou de um Camus, Carlos anima-se e agita-se numa azáfama também sem propósito e nenhuma esperança. Quer o osso do poder, a influência sobre as provincianas figuras de alto coturno do país recém-democratizado. Um e outro, não esquece Fábio Campana, são frutos do mesmo ventre e ninguém nasce impunemente desse caudal de bestialidade e angústia, febre e medo.

Sim, senhores, ao se dar em dois planos ficcionais, Ai é tributário da origem; de todas as origens. E no que me parecem os melhores momentos narrativos do livro, Campana recupera os entreveres do surgimento de uma cidade, oficialmente fundada em 1914, mas nascida dos escombros de uma guerra que ainda hoje nos envergonha e humilha – desde a rendição paraguaia em Cerro Corá, em 1870, ali onde as tropas leprosas e maltrapilhas de Solano Lopez só então entregaram os pontos frente ao Exército imperial do afetado Conde d?Eu. Os livros que estudamos na escola não contam da história nem o começo… Fábio Campana não mente e não tergiversa – 18 anos depois, precisamente em 1888, na foz do Rio Iguaçu, o passado já começa a nos contar uma saga sem futuro.

Importante aduzir que em Ai, ainda que a fronteira seja um dado, digamos, do real – concreto e geográfico -, pelas mãos inventoras do autor a fronteira dentro da fronteira sugere uma lasciva forma de aproximar o inaproximável e de dividir o indivisível. Carlos e Luís. Luís e Carlos. Dois irmãos, que são? Dois inimigos. Mesmo que movidos por ternura e amor atávicos, sob o chicote dos laços de sangue, o que se impõe é o ovo – a mesma patética origem, ela própria roída por dentro, desde sempre, desde a primeira vez. Outro dado precioso de Ai, podemos destacar, é a linguagem. Ardilosamente contida, mesmo nos momentos da mais exasperante poesia, mantém-se atenta, ao longo de todo romance, a que não extravase a escrita dos apertados limites que toda boa prosa exige.

Evidência segura de que inexiste “poesia em prosa” que não seja, em última instância, nada mais que “poesia” mesmo, sem eufemismos epistemológicos; e que toda prosa que se preze, por mais “poética”, há que se render, no tecido da escrita, à habilidade no manuseio da narrativa. Claro que não estamos defendendo aqui, veja-se bem, nem funâmbulos entrechos nem a gasta tradição do enredo, esta invenção do século 19. E são justamente os desenredos de Ai que criam a prosa mais imensa. Livro oportuno e audacioso, ao nos colocar frente a frente com o jugo do passado, Ai descortina, por paradoxal que seja – e toda grande arte terá no paradoxo o seu maior enigma -, as dobras do futuro, nem que seja como severo aviso de advertência.

Eu e Wilson Bueno em um dia antigo do passado.

Um a Um

No fundo de minha alma dormem assassinos

Enquanto um estrategista arma o plano

para eliminar, um por um, meus desafetos

Vejo o início da descida

de onde sobem rumores e risos,

estaremos sempre juntos, ela disse,

com sua maneira doce de mentir,

ternura maquiada nos olhos

carmim barato nos lábios,

mãos ágeis de cartomante

uma escorrega sobre meu pau

a outra consuma o furto

enquanto sua boca murmura

juras de folhetim ordinário

Não se deve rir alto demais

para não entediar os deuses

nem lamentar as perdas.

A tristeza está nas linhas

do distante e do impossível.

Eu agora me dispo da tristeza

e a deixo ao pé da cama

como um cão fatigado

que irá se recompor

chamado pela solidão.

Olha o que a Letícia Armani escreveu depois de uma breve entrevista que fez comigo.

Fábio Campana diz que tem todas as vocações, e que isso significa não ter nenhuma. Vamos ao que ele conta sobre si mesmo. iniciou cinco cursos universitários. Direito, jornalismo, economia, filosofia e psicologia. Só chegou à licenciatura em psicologia. E olhe lá. Tentou outras profissões. Ator, foi mal. Artista plástico, não foi longe. Nem perto. Baterista de jazz? Sua coordenação motora é péssima. Imaginou ser médico, arquiteto ou, pasmem, adestrador de cães. Não prosperou.

A verdade é que, desde muito cedo, Fábio Campana gostou mesmo de fazer duas coisas. Ler e escrever. Sua intimidade com as palavras, seu domínio da linguagem, o prazer na elaboração do texto, foi o que fez dele jornalista, editor, escritor, analista, crítico e, principalmente, poeta. Mais que tudo, poeta.

Quem sobrevive da poesia? Pois Campana se inventou e reinventou para garantir a existência. Foi diretor de marketing, publicitário, dirigiu campanhas eleitorais, deu consultoria a presidentes e governadores, aqui e no exterior. Aproveitou a experiência na militância política que nem sempre foi tranquila. Nos anos de chumbo foi preso político, passou pelos sofrimentos mais vis, que lhe deixaram cicatrizes, principalmente na alma.

Mas nem só de tristezas foi a sua vida neste vale de lágrimas. Amou, casou, teve filhos, neto. Amou. Viajou, correu o mundo, voltou. Sempre voltou a Curitiba.

Hoje, Fábio Campana tem uma obra consistente. Escreveu romances, contos, crônicas e tem vários livros de poesias. Prepara suas memórias de uma vida intensa, de vitórias e decepções. E logo terá mais um livro de poesias, Poema de Véspera. Não o último. Há outros a caminho. Inclusive um de poesia de escárnio ou canções de maldizer. Morro de curiosidade, mas ele não abre. Vamos esperar.

Pau-de-Arara

Tempo de lamber as feridas
recolher as garras e escolher
as palavras que não serão ditas.
Atravessar o deserto de signos
Nu. Músculos flácidos
Valores esfarrapados.
Impossível bloquear
O dia inaugural do pesadelo
que resiste como resiste o vermelho
das inscrições nos muros,
ou a lembrança dos pássaros mortos.
Pulsos presos aos tornozelos,
barra de ferro entre os braços
e as dobras do joelho.
O cu à mostra
voz escura do algoz da hora
eletrodos nas têmporas,
no saco, no pau, no ânus.
Ânus? No cu.
a cabeça pendida para trás,
olhar inverso
o mundo ao contrário
aproximam-se as mãos
as luvas ásperas
e um bastão negro.
Navego contra a corrente;
procuro rostos,
no silêncio frio de uma génese.
Tenho frio.
Deixo que meus olhos
se libertem da sombra,
depois de uma noite de medos,
para me abrigar na luz
estéril da madrugada