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Agora eu tenho um blog de Arte e literatura

Decidi abrir um blog específico, onde possa mostrar minha poesia, meus textos e também aqueles que mais me tocam, de qualquer época e lugar. Não é possível manter esse material confundido com as notícias do blog geral, que mais trata de política e coisas terrenas. Espero que se torne um espaço de interlocução, de iniciativa criadora, de trocas.

Olhar de poeta, coisa simples

Jéssica Stori

Penso sempre no olhar do poeta, imagino-o sempre em silêncio com os olhos abertos para tudo. Imagino sua caminhada pela cidade, seus passeios noturnos, suas visitas aos amigos e tudo e qualquer coisa que o poeta faça. Seu silêncio e o olhar aberto para tudo. No lugar onde nasce o poema, o despertar para uma emoção qualquer e única. Quem pode ensinar um olhar a ser um olhar de poeta? Quem pode fazer daquela percepção o nascimento de uma emoção? Escrevê-la, colocar voz, corpo, olhar. E então fechar o livro. Sentir de novo.

Construo identidade de poeta. Uma identidade coletiva. Um grupo de solidões espalhadas, vivendo de olhos abertos, vivos. O mais próximo do ensinamento, onde há interesse, é poder acompanhar o olhar escrito. Abrir o livro de um poeta e viver com ele todas as suas emoções. Se entregar e vivê-las junto. Caminhar, sentir, conversar. Viver de novo.

As coisas simples, novo livro de poesias de Fábio Campana, editado pela Travessa dos Editores, é mais uma organização de olhares que podem ser atentos ou não, mas vivos e entregues ao despertar. Abertos para a vida, para o toque, para as liberdades, para os pássaros, para as vocações, para as invenções de palavras indestrutíveis, para o abandono de transcendências, para ausências e urgências, para as dissipações dos ecos das paixões, para a juventude, para a solidão, para a dor, absoluta e inevitável, para o amor efêmero, eterno, para o vinho e para as dívidas da vida. Para não encerrar a participação, independente da comédia que seja o fim. As coisas simples é uma possibilidade de encontro, do olhar do poeta e do despertar dos dispostos.

Cabe agora aceitar quando ele colocar em suas mãos um copo de sangue ou de lágrima, posta uma a uma.

O guardador de fantasmas

Jamil Snege
Um osso entalado na garganta. Há quase trinta ano. Vez por outra você para diante do espelho, abre a boca, examina o osso, tenta retirá-lo, mas desiste. Suspeita que a dor da extração será pior do que conservá-lo ali, quieto, feito um implante, tão em encaixado que uma rede de vasos irriga como se fosse parte de sua própria anatomia.
Mas é uma prótese, um corpo estranho. Você tinha dezenove anos quando o embutiram ali. O adulto sobreviveu, resignou-se, mas o jovem, que ficou lá atrás, considera de uma violência inaudita a experiência que lhe impuseram. Você tem todo o direito de deslizar para dentro da maturidade. Mas há um momento, nesse percurso, que nos tornamos pai do jovem que fomos um dia. Seus sonhos nos perturbam. Suas dores e frustrações, irrompem em nossa carne como punhais que nos dilaceram de dentro. Há um momento do percurso, que nos tornamos filhos do adulto que somos hoje.
Fábio Campana, pai, e Fábio Campana, filho, marcam um encontro na casa adormecida. Madrugada após madrugada, frente a frente, entregam-se à penosa faina de destecer ponto por ponto a trama da vida. Mas não se detêm no ponto em que se fundem num só. Recuem em direção à Infância, invadem-na e lá – onde  se instaura a memória – reencetam o caminho da volta. Pior o retorno, pois já não se vêm sós. Uma corte de fantasmas os segue. Estavam desde sempre. Porém agora, libertos da trama que os imobilizou no tempo, exigem carne e voz, agridem e acariciam, acusam e redimem. Um doce perfume de mulher, o hálito pestilento do inquisidor, a voz melíflua que verte do confessionário – os fantasmas estão soltos, desnovelados e desgovernados pela sala.
Hora mais difícil. Retecer, perpassar com o fio do discurso, os espectros, ordená-los em nova urdidura, ora no território livre da ficção. O guardador recolhe as reses extraviadas. O osso da garganta é flauta que se liberta – e o que temos em seguida é música. Contida, às vezes entrecortada por um soluço, porém um feixe polifônico que arrasta em seu caudal, um dos tempos mais negros da história. Que tempo é esse? Perguntarão os mais jovens e os de curta memória. O Guardador de Fantasmas lhes dirá, através de um romance denso, escrito com maestria, e desde já a peça mais pungente que a literatura brasileira produziu sobre aquele período. Quem duvidar que leia. Os editores não se responsabilizam por eventuais ossos entalados na garganta. 

Não nascemos ignorantes, aprendemos a ser ignorantes

do Rincón de la Psicología

Nós sempre pensamos que ignorar é um verbo passivo. Ignorância é a falta de conhecimento, um estado de desinformação ou falta de compreensão. Portanto, qualificamos uma pessoa como “ignorante” quando ela não sabe ou não entende alguma coisa.

Esse caráter passivo implica que, de certa forma, essa pessoa não é responsável por sua ignorância, ele simplesmente carrega consigo aquela “falta”. É curioso, no entanto, que não se aplique a qualificação de ignorantes às crianças, mesmo que elas geralmente não dominem o mesmo conhecimento dos adultos.

Isso significa que a ignorância começa com um pressuposto: algo que devemos saber, mas não sabemos, um caminho pelo qual deveríamos ter percorrido, mas não o fizemos. Então a ignorância abandona seu significado passivo para ter um significado ativo que implica não reconhecer algo ou agir como se não fosse conhecido. Nós caímos no que é conhecido como “ignorância motivada”.

O que é ignorância motivada?

A ignorância motivada é quando escolhemos, mais ou menos conscientemente, não saber mais, não nos aprofundar, não entender. Essa ignorância é terrivelmente perigosa porque tende a levar a posições extremas e reduz nossa capacidade de continuar crescendo e amadurecendo. Quando decidimos ser ignorantes, alguém decidirá em nosso lugar. Nós nos tornamos manipuláveis.

Goethe já havia dito: “não há nada mais terrível que a ignorância ativa”. O filósofo Karl Popper pensava o mesmo: “A verdadeira ignorância não é a ausência de conhecimento, mas a recusa em adquiri-lo”.

Essa ignorância motivada pode ocorrer em todas as áreas de nossas vidas. Algumas pessoas começam a se sentir mal, mas ao invés de ir ao médico para receber um diagnóstico, elas preferem se refugiar na ignorância assumindo que está tudo bem. Outras pessoas suspeitam que seu parceiro é infiel, mas, em vez de esclarecer suas dúvidas, escolhem permanecer ignorantes. O mesmo acontece no nível político ou social: quando já temos uma ideia formada, optamos por não escutar ou valorizar os argumentos contrários.

Por que escolhemos a ignorância motivada?

Um experimento realizado na Universidade de Winnipeg e na Universidade de Illinois mostrou quão forte e irracional nossa tendência para a ignorância motivada pode ser. Esses psicólogos recrutaram 200 pessoas e deram a elas duas opções: ler e responder perguntas sobre uma opinião (casamento gay) com as quais concordavam ou ler um ponto de vista oposto.

Aqueles que decidiram ler a opinião com a qual concordaram ganhariam $ 7; mas se eles escolhessem a opinião contrária, ganhariam 10 dólares. Surpreendentemente, 63% das pessoas preferiram ler a opinião com a qual concordaram, rejeitando a possibilidade de ganhar mais dinheiro.

Nesse caso, escolhemos ser ignorantes para evitar a dissonância cognitiva. Nós desenvolvemos uma concepção do mundo que manipula nossas idéias e crenças, e tememos que opiniões contrárias possam desestabilizar aquele castelo de cartas. É por isso que preferimos ignorar tudo o que não corresponde à nossa visão. E isso significa que, no fundo, a ignorância motivada é uma expressão de medo.

Como nós instilamos esse medo?

“O medo da nossa ignorância é uma sensação de que fomos sistematicamente inculcados durante o período escolar. É sobre a sensação de que não sabemos algo que muitos conhecem, por isso é melhor ficar quieto e se acomodar ”, disse o filólogo Igor Sibaldi.

Na escola, a ignorância é revestida com um halo negativo. Começa a apontar o dedo para o ignorante. E isso gera um paradoxo porque, para superar a ignorância, devemos primeiro reconhecê-la, mas não podemos reconhecê-la por medo de ser rotulado como ignorante. O escritor Baltasar Gracian disse que “o primeiro passo da ignorância é presumir saber”.

Livrar-se da ignorância não é realmente difícil, basta informar-se, “mas esse comportamento é impossível para a grande maioria das pessoas porque o hábito de se sentir ignorante se tornou algo mais forte do que o desejo de aprender”, segundo Sibaldi.

A ignorância se torna uma zona de conforto em que nos sentimos muito à vontade para sair. Ou talvez nem nos sintamos tão confortáveis, mas o medo do que está fora, tudo o que desafia nossas crenças, é tão forte que nos mantém paralisados naquela zona de conforto. Assim escolhemos a ignorância.

Poesia

Poesia que se preza,
não frequenta
solenidades oficiais
e pessoas gradas.
Poesia verdadeira
não vai à missa,
não ouve sermões
e não se presta
às homenagens
protocolares.
A depender do humor
prefere insultar
oficiais de Justiça,
fiscais do governo,

o próprio governo,
e não teme a polícia.
Sabe ser doce
ao falar de amor
e chorar o desamor.
É fera inconformada,
irónica, amável,
paciente, impiedosa.
A poesia gosta mesmo
de caminhar livre
sem peias, sem freios,
onde a vida reclama
a sua inspiração.

A saga da literatura

Em “O mundo da escrita”, o historiador Martin Puchner demonstra que a civilização avançou por causa da união das grandes narrativas com as invençõs. Artigo de Luís Antônio Giron na ISTO É que está nas bancas.

Nos últimos 4 mil anos, da epopeia suméria “Gilgamesh”, escrita em tabletes de argila, à série juvenil “Harry Potter”, disponível em tablets e outras plataformas digitais, a literatura passou por mudanças à medida que incorporou as invenções. O professor de Literatura Comparada da Universidade Harvard Martin Puchner apresenta uma abordagem inovadora para o tema no livro “O mundo da escrita – como a literatura transformou a civilização” (Companhia das Letras). A literatura para ele não somente refletiu os fatos, como foi essencial para alterá-los. Os 16 capítulos de sua obra compõem uma história da literatura ao avesso dos argumentos habituais.

“Foi apenas quando a narração cruzou com a escrita que a literatura nasceu”, diz Puchner. O alfabeto, papiro, o papel, o livro, impressão e o hipertexto via internet potencializaram-na de tal forma que foi capaz de revolucionar o comportamento,a religião, a política, as artes e o conhecimento. A ponto de o planeta ter-se transformado em um imenso livro.

Puchner divide em quatro etapas esse mundo-escrita. A primeira marca a domínio dos códigos da escrita pelos escribas egípcios e sumérios, respectivamente hieroglífico e cuneiforme, que os guardavam em segredo para que seus mentores, os sacerdotes, comandassem populações analfabetas.

Moinhos mecânicos

Eles foram denunciados na fase posterior por gurus filosóficos como Buda, Sócrates e Jesus. A terceira etapa assinala o nascimento dos autores, impulsionados pelas novas tecnologias. Por fim, a prensa de Gutenberg e a automação da produção de livros intensificaram a alfabetização e o consumo literário em massa. O resultado, afirma, “é um mundo no qual esperamos que as religiões se baseiem em livros e que nações se fundam em textos, um mundo em que conservarmos rotineiramente com vozes do passado e imaginamos que podemos nos dirigir aos leitores do futuro”.

Investigações desse gênero em geral se dão em arquivos e bibliotecas reais e virtuais. Em vez de ficar sentado, Puchner fez expedições aos lugares em que as invenções e textos marcantes surgiram. Passeou as ruínas de Troia – palco da “Ilíada” de Homero – e Chiapas, no sul do México, onde foi concebida epopeia maia “Popol Vuh”, numa segunda invenção da escrita. “Percorrendo as ruínas da grande Biblioteca de Pérgamo, na Turquia, refleti sobre como o pergaminho havia sido inventado ali”, afirma. “Fiquei maravilhado com as bibliotecas de pedra da China, onde os imperadores queriam tornar permanente o seu cânone de literatura”.

O historiador tanto viajou ao ler na tela do computador como leu viajando, in loco. Assim, aprendeu que a literatura impele o leitor a agir. Descobriu que Alexandre, o Grande, lia à noite um rolo de papiro da “Ilíada” comentado por seu preceptor, Aristóteles. Inspirado nas táticas de Aquiles, o monarca macedônio conquistou e helenizou a maior parte do mundo conhecido, do Mediterrâneo à Báctria, atual Afeganistão. Também fundou a Biblioteca de Alexandria, a maior do mundo antigo, e recolheu fábulas que, na Bagdá medieval (então centro da indústria do papel), foram agregadas às “Mil e Uma Noites”. Da mesma forma, logo que os livros impressos se tornaram produtos, Cervantes criou “Dom Quixote”, o primeiro romance moderno,interpolando contos, à maneira dos contos árabes. Ele o fez com dois objetivos, de acordo com Puchner: destruir a popularidade dos romances de cavalaria e denunciar a supremacia dos impressores e dos moinhos de vento, então maravilhas da automação, contra os quais o leitor compulsivo Dom Quixote luta, tomando-os por gigantes. De quatro milênios para cá, os livros continuam a ameaçar, inspirar e enlouquecer a

As palavras

(Octavio Paz)
Girar em torno delas,
virá-las pela cauda (guinchem, putas),
chicoteá-las,
dar-lhes açucar na boca, às renitentes,
inflá-las, globos, furá-las,
chupar-lhes sangue e medula,
secá-las,
capá-las,
cobri-las, galo, galante,
torcer-lhes o gasnete, cozinheiro,
depená-las, touro,
bois, arrastá-las,
fazer, poeta,
fazer com que engulam todas as suas palavras.

.

Las palabras
Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras.

– Octavio Paz, em “Transblanco: em Torno a Blanco de Octavio Paz”.

[tradução Haroldo de Campos]

. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

§

Inventário de uma desilusão

Wilson Bueno publicou no jornal Estado de SP em 2010, pouco antes de morrer, sobre meu livro Ai.

Depois de O Guardador de Fantasmas, do inventivo O Último Dia de Cabeza de Vaca e da alta voltagem de Todo Sangue, Fábio Campana retoma, com o inquietante romance Ai – desde já uma das melhores ficções publicadas no Brasil neste 2007 -, o seu inventário de sombra e desassossego. Para quem, como Luís, protagonista e narrador do livro, inexiste o presente e muito menos o futuro, há que se pensar o passado feito aqueles que, só pela via da memória, alcançam recompor uma vida em pedaços. Ao final e ao cabo, possivelmente reste alguma coisa para além das perdidas ilusões.

Daí a obsessão pelo ido e o vivido neste autêntico “romance de formação” (o nunca assaz louvado bildenroman) com que Campana nos surpreende ainda outra vez, senhor de seu ofício e da engenhosidade não pequena que toda prosa digna deste nome pede e reclama. A partir de um entrecho aparentemente simples, o que temos em Ai são os retornos do narrador Luís à casa paterna, em Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira, no exato cenário onde o passado vige feito um bicho que resiste ao andado das horas. Triunfa ali, como não poderia ser de outro modo, o passado do passado e outro passado ainda, mais remoto, o dos primórdios da fundação da cidade, 18 anos depois do fim da Guerra do Paraguai, por homens broncos e decididos, mas capazes ao menos de uma “ponte” com o futuro. Ao pobre-diabo Luís, professor de História às voltas com o eterno adiamento de uma tese acadêmica, nem isso.

E se ele, o futuro, existiu um dia, já nasceu bichado sob o sonho evangélico de um mundo mais justo e mais equânime, pelo viés da utopia socialista que animou o melhor da geração que aí está, sexagenária ou quase – o mais das vezes, frustra e vã. Não, senhores, não pensem encontrar neste livro quase nauseante – pela densidade que a tudo comove e petrifica -, uma fresta que seja na direção da esperança. Não há esperança para quem perdeu de vez o futuro. Na casa da infância, além do pai, tão dúbio quanto ausente, e da mãe protetora do legado espiritual da família, mesmo que isso custe varrer sob o tapete as mais indizíveis sujeiras morais de lúbricos parentes, como sói acontecer nos clãs pequeno-burgueses de hoje ou de outrora, Luís bate de frente com as origens. O irmão Carlos, um influente assessor de políticos nascidos das cinzas da resistência à ditadura militar brasileira, tem poder e prestígio nas mãos, mas não logrou igualmente se desvencilhar da gênese, sempre primeva e desde sempre corrompida.

Também na casa de Foz encontram-se os diários do avô Vithorino Tharless de Anforena, que a mãe, ciosa dos pertences da família, vigia atenta e não permite que da casa saia. Ali foi escrito num espanhol arrevesado e difícil e ali há de ficar até o último escombro ou a derradeira traça. O atormentado Luís o revisita, a cada vez, tentando encontrar, secretamente, naquelas páginas comidas pelo tempo, a razão de tudo. Desnecessário lembrar que também nas anotações de Don Vithorino as desrazões do clã modesto jamais serão encontradas. Proposital ou não, o fato é que o narrador deste quase aflitivo inventário romanesco se chama Luís. Em nada diferente daquele outro Luís, o da Silva, que por amor à frívola Marina, mata Julião Tavares, no clássico Angústia, de Graciliano Ramos. O Luís, de Fábio Campana, não fica atrás da torturada e torturante personagem nordestina. Ainda que Marta seja só mais uma… Em ambos os casos, o mundo estreitou-se consideravelmente. E, sem coragem para o suicídio, ambos roem-se a si mesmos com igual, paciente e obstinada volúpia.

Luís e Carlos. O tema dos dois irmãos é, sabemos, um tema recorrente da grande tradição literária. Entre nós, o exemplo mais canônico (ou canonizado…) é Esaú e Jacó, de Machado de Assis e, mais recentemente, Dois Irmãos, do sempre instigante Milton Hatoum. Agora, Fábio Campana, com Ai, mexe de novo nas úlceras incicatrizáveis dessas relações viciadas pela raiz – pólos antagônicos de uma mesma sonâmbula origem. Se Luís autoriza a si mesmo uma visão descrente da vida, afim com o niilismo existencialista de um Sartre ou de um Camus, Carlos anima-se e agita-se numa azáfama também sem propósito e nenhuma esperança. Quer o osso do poder, a influência sobre as provincianas figuras de alto coturno do país recém-democratizado. Um e outro, não esquece Fábio Campana, são frutos do mesmo ventre e ninguém nasce impunemente desse caudal de bestialidade e angústia, febre e medo.

Sim, senhores, ao se dar em dois planos ficcionais, Ai é tributário da origem; de todas as origens. E no que me parecem os melhores momentos narrativos do livro, Campana recupera os entreveres do surgimento de uma cidade, oficialmente fundada em 1914, mas nascida dos escombros de uma guerra que ainda hoje nos envergonha e humilha – desde a rendição paraguaia em Cerro Corá, em 1870, ali onde as tropas leprosas e maltrapilhas de Solano Lopez só então entregaram os pontos frente ao Exército imperial do afetado Conde d?Eu. Os livros que estudamos na escola não contam da história nem o começo… Fábio Campana não mente e não tergiversa – 18 anos depois, precisamente em 1888, na foz do Rio Iguaçu, o passado já começa a nos contar uma saga sem futuro.

Importante aduzir que em Ai, ainda que a fronteira seja um dado, digamos, do real – concreto e geográfico -, pelas mãos inventoras do autor a fronteira dentro da fronteira sugere uma lasciva forma de aproximar o inaproximável e de dividir o indivisível. Carlos e Luís. Luís e Carlos. Dois irmãos, que são? Dois inimigos. Mesmo que movidos por ternura e amor atávicos, sob o chicote dos laços de sangue, o que se impõe é o ovo – a mesma patética origem, ela própria roída por dentro, desde sempre, desde a primeira vez. Outro dado precioso de Ai, podemos destacar, é a linguagem. Ardilosamente contida, mesmo nos momentos da mais exasperante poesia, mantém-se atenta, ao longo de todo romance, a que não extravase a escrita dos apertados limites que toda boa prosa exige.

Evidência segura de que inexiste “poesia em prosa” que não seja, em última instância, nada mais que “poesia” mesmo, sem eufemismos epistemológicos; e que toda prosa que se preze, por mais “poética”, há que se render, no tecido da escrita, à habilidade no manuseio da narrativa. Claro que não estamos defendendo aqui, veja-se bem, nem funâmbulos entrechos nem a gasta tradição do enredo, esta invenção do século 19. E são justamente os desenredos de Ai que criam a prosa mais imensa. Livro oportuno e audacioso, ao nos colocar frente a frente com o jugo do passado, Ai descortina, por paradoxal que seja – e toda grande arte terá no paradoxo o seu maior enigma -, as dobras do futuro, nem que seja como severo aviso de advertência.

Eu e Wilson Bueno em um dia antigo do passado.