Um a Um

No fundo de minha alma dormem assassinos

Enquanto um estrategista arma o plano

para eliminar, um por um, meus desafetos

Vejo o início da descida

de onde sobem rumores e risos,

estaremos sempre juntos, ela disse,

com sua maneira doce de mentir,

ternura maquiada nos olhos

carmim barato nos lábios,

mãos ágeis de cartomante

uma escorrega sobre meu pau

a outra consuma o furto

enquanto sua boca murmura

juras de folhetim ordinário

Não se deve rir alto demais

para não entediar os deuses

nem lamentar as perdas.

A tristeza está nas linhas

do distante e do impossível.

Eu agora me dispo da tristeza

e a deixo ao pé da cama

como um cão fatigado

que irá se recompor

chamado pela solidão.

Olha o que a Letícia Armani escreveu depois de uma breve entrevista que fez comigo.

Fábio Campana diz que tem todas as vocações, e que isso significa não ter nenhuma. Vamos ao que ele conta sobre si mesmo. iniciou cinco cursos universitários. Direito, jornalismo, economia, filosofia e psicologia. Só chegou à licenciatura em psicologia. E olhe lá. Tentou outras profissões. Ator, foi mal. Artista plástico, não foi longe. Nem perto. Baterista de jazz? Sua coordenação motora é péssima. Imaginou ser médico, arquiteto ou, pasmem, adestrador de cães. Não prosperou.

A verdade é que, desde muito cedo, Fábio Campana gostou mesmo de fazer duas coisas. Ler e escrever. Sua intimidade com as palavras, seu domínio da linguagem, o prazer na elaboração do texto, foi o que fez dele jornalista, editor, escritor, analista, crítico e, principalmente, poeta. Mais que tudo, poeta.

Quem sobrevive da poesia? Pois Campana se inventou e reinventou para garantir a existência. Foi diretor de marketing, publicitário, dirigiu campanhas eleitorais, deu consultoria a presidentes e governadores, aqui e no exterior. Aproveitou a experiência na militância política que nem sempre foi tranquila. Nos anos de chumbo foi preso político, passou pelos sofrimentos mais vis, que lhe deixaram cicatrizes, principalmente na alma.

Mas nem só de tristezas foi a sua vida neste vale de lágrimas. Amou, casou, teve filhos, neto. Amou. Viajou, correu o mundo, voltou. Sempre voltou a Curitiba.

Hoje, Fábio Campana tem uma obra consistente. Escreveu romances, contos, crônicas e tem vários livros de poesias. Prepara suas memórias de uma vida intensa, de vitórias e decepções. E logo terá mais um livro de poesias, Poema de Véspera. Não o último. Há outros a caminho. Inclusive um de poesia de escárnio ou canções de maldizer. Morro de curiosidade, mas ele não abre. Vamos esperar.

Pau-de-Arara

Tempo de lamber as feridas
recolher as garras e escolher
as palavras que não serão ditas.
Atravessar o deserto de signos
Nu. Músculos flácidos
Valores esfarrapados.
Impossível bloquear
O dia inaugural do pesadelo
que resiste como resiste o vermelho
das inscrições nos muros,
ou a lembrança dos pássaros mortos.
Pulsos presos aos tornozelos,
barra de ferro entre os braços
e as dobras do joelho.
O cu à mostra
voz escura do algoz da hora
eletrodos nas têmporas,
no saco, no pau, no ânus.
Ânus? No cu.
a cabeça pendida para trás,
olhar inverso
o mundo ao contrário
aproximam-se as mãos
as luvas ásperas
e um bastão negro.
Navego contra a corrente;
procuro rostos,
no silêncio frio de uma génese.
Tenho frio.
Deixo que meus olhos
se libertem da sombra,
depois de uma noite de medos,
para me abrigar na luz
estéril da madrugada

Agora eu tenho um blog de Arte e literatura

Decidi abrir um blog específico, onde possa mostrar minha poesia, meus textos e também aqueles que mais me tocam, de qualquer época e lugar. Não é possível manter esse material confundido com as notícias do blog geral, que mais trata de política e coisas terrenas. Espero que se torne um espaço de interlocução, de iniciativa criadora, de trocas.