Com a queda do Império, cultura é reinterpretada e tenta quebrar o vínculo com o passado monárquico

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

Não foi a República o primeiro regime a usar a arte para promover seus valores, mas foi certamente a partir dela que nossa cultura foi reinterpretada por pintores a pedido dos governantes, que, pressionados a quebrar o vínculo com o passado monárquico, abriram uma brecha para a entrada de novos atores no cenário. Talvez nunca tenhamos sido modernos como pretendiam os organizadores da Semana de Arte de 1922. Mas tentamos.

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Artistas do movimento (à esq.) entraram em cena com a defesa de uma nova estética e uma arte mais brasileira; o evento se tornou um marco cultural importante e deu uma nova perspectiva para a arte brasileira Foto: Arquivo do MIS

Lilia Moritz Schwarcz, no recém-lançado Dicionário da República, lembra a propósito que se travou nos primeiros anos do regime republicano uma “batalha visual” com o Segundo Reinado pela afirmação de uma iconografia nacional. Como se sabe, d. Pedro II era um imperador sintonizado, não só com seu tempo, mas com o futuro (a fotografia, por exemplo, desenvolveu-se no Brasil graças ao interesse e ao incentivo do monarca). Também foi por sua capacidade visionária que alguns pintores, atentos à simpatia do imperador pela cultura dos antípodas, trocaram a representação de cenas burguesas por imagens de indígenas – ainda que essa fosse uma representação romântica e idealizada dos nativos. PUBLICIDADE

Há historiadores que defendem ter sido essa relação um tanto perturbadora (e promíscua), resultante da dependência do mecenato do imperador. As inúmeras bolsas de estudos para os artistas que foram estudar em Paris resultaram numa admiração excessiva pelos mestres acadêmicos franceses e pouca reflexão sobre as cores e os tipos locais – os negros, por exemplo, sempre foram personagens secundários na pintura brasileira e só se tornariam protagonistas com a República – ainda que de uma maneira um tanto discreta. O Segundo Reinado foi estável demais para testemunhar o nascimento de artistas renovadores sem vínculos com conservadores.

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Segundo Lilia Schwarcz houve batalha por uma nova iconografia após a República Foto: Daniel Teixeira / Estadão / 11-12-2013

Pedro Américo foi o pintor da história oficial. Vitor Meirelles é mais lembrado como o autor de Primeira Missa no Brasil do que por Moema, tela icônica do nacionalismo indigenista. Há, é claro, Almeida Júnior, que, muito antes do modernistas de 1922, buscou retratar tipos populares e forjar uma cor local, interiorana, antecipando em muitos anos as pesquisas cromáticas da modernista Tarsila do Amaral.

A instauração da República, no entanto, não enterrou a Academia nem corrigiu os erros do mecenato do Segundo Reinado, bastando lembrar a crise da transformação da Academia Imperial na Escola Nacional de Belas Artes sob a direção do escultor Rodolfo Bernardelli – inaugurando uma tradição republicana que perdurou: ele foi acusado de desvio de verbas e de formar uma máfia entre os professores da instituição para se perpetuar no poder.

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Academia Imperial virou Escola Nacional de Belas Artes sob a direção do escultor Rodolfo Bernadelli, que foi acusado de desvio Foto: Reprodução do livro ‘Cinelândia – breve história de um sonho’

Bernardelli, mexicano de nascimento, viveu anos na Europa e deu aulas de desenho e escultura na Academia Imperial. Foi contemporâneo de Rodin, mas sem a vocação moderna do colega francês. Assinou esculturas de personagens históricos (de Cabral a Carlos Gomes), mas não serviu ao propósito da República, que preferiu encomendar aos pintores uma iconografia capaz de traduzir um sistema de valores que demarcasse as diferenças entre a arte republicada e a patrocinada pela monarquia – pela falta de colecionadores locais, os artistas bolsistas que estudavam na Europa dependiam da aquisição de suas obras pelo Estado e nem o mais entusiasta dos republicanos pensava em voltar ao Brasil quando ganhava uma bolsa do governo.

É tão verdade que o próprio Rodolfo Bernardelli, em 1896, numa carta ao pintor Eliseu Visconti, aconselhou o artista a ficar em Paris, onde era pensionista. Por que o diretor da republicana Escola Nacional de Belas Artes aconselharia um brasileiro a virar as costas para o Brasil e permanecer na Europa? A falta de interesse da sociedade brasileira é parte da resposta. Na Primeira República, que vai de 1889 a 1930, o gosto da oligarquia que levou os republicanos ao poder era tão miserável como é hoje – explicável por pertenceram a uma categoria que baseia seu poder em suas posses, não na cultura.

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A obra ‘A Carioca’, do escultor Rodolfo Bernadelli Foto: Acervo do Museu Nacional

Não se deve esquecer que a República, nascida de um golpe militar, acolheu não exatamente os progressistas, mas tipos fantasiados de modernos, extremamente conservadores. Entre a oligarquia que cresceu no Segundo Império e os republicanos, alimentados com o ressentimento da classe média, igualmente ignorante, a arte só foi lembrada como elemento de propaganda do regime, e ainda assim como alegoria – e Lilia Schwarcz cita no Dicionário da República exemplos como os “soldadinhos de chumbo’ de Benedito Calixto em sua representação pictórica da f (1893). Outro exemplo de Lilia: a apropriação indébita da figura de Tiradentes como contraponto da Monarquia, um Cristo esquartejado para servir com sua aura sacra à sanha republicana.

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D. Pedro II oferecia bolsas para artistas estudar em Paris Foto: Joaquim Insley Pacheco

E os africanos, os ex-escravos? Eles continuaram ausentes nas telas, numa época (1889) em que o Brasil tinha 636 indústrias e 54 mil operários. Tiradentes era o “moderno possível”. Os ex-escravos não eram fotogênicos aos olhos dos pintores da República Velha.

A construção de uma identidade nacional, embora fosse uma preocupação do Estado desde o Segundo Império, demorou a tomar força – e não foi o positivismo dos militares republicanos que consolidou seus valores. Essa noção de cultura brasileira, como bem assinalou o historiador Carlos Guilherme Motta, surgiu no discurso ideológico de segmentos elitizados da população, mas não resistiu ao vírus positivista que atacou a Velha República, autoritária de nascença. Os pintores podiam viajar a Paris com bolsas de estudos e idealizar os mestres franceses, mas nem a República nem os constitucionalistas monarquistas deglutiram o modelo da Revolução Francesa.

A ruptura com o Brasil parnasiano não foi conquistada nem mesmo com a realização da Semana de Arte Moderna de 1922 porque, no fundo, nunca fomos modernos, mas suburbanos e racistas – a miscigenação, vale lembrar, é classificada por Euclides da Cunha (em Os Sertões) como um “retrocesso”. O projeto de Bernardelli de adotar a Escola Nacional de Belas Artes como modelo de outras escolas públicas não era, enfim, o de levar à arte ao povo, mas de formar professores sintonizados com as ideias políticas de um governo conservador como o militar– disciplinas como anatomia artística seriam reservadas a alunos “mais adiantados”. Isso não lhe parece familiar? A nova e a velha República se parecem demais.

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