Talento para a enganação

O front cultural, melhor termômetro de nossa vitalidade, é uma lástima. Predominam os não eventos, patrocinados com dinheiro público, é claro. Típicos de uma sociedade fim de linha, como aqueles cadáveres com reflexos nervosos, a crescer cabelos e unhas.

Patinamos na mesmice da produção medíocre em todas as áreas. Há quantidade, é verdade. Algum experimentalismo chinfrim. Canhestro. Sem público. Performances, instalações, exposições, lançamentos, simulações vazias.

Na literatura, nunca se publicou tanto. E a internet apresenta milhares de sites de cultura a revelar poetas, romancistas, dramaturgos e contistas às pencas. Com exceções notáveis, não há qualidade. Nenhuma originalidade.

A maioria escreve “à moda de”, a produzir pastiches. Nada que se distinga de uma literatura estandardizada pelas fórmulas preconcebidas ensinadas na academia. Este fenômeno da pobreza na produção cultural se repete até mesmo naquilo que sempre nos destacou pela criatividade. Continuamos a ouvir as canções criadas há cinquenta anos porque nada se fez que tenha superado a criatividade da época.

E não devemos esquecer da horda de poetas sem poesia, de autores consagrados que ainda não publicaram nada, de músicos sem música, de pintores com obra futura. Talento para a enganação não falta.

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