A POESIA, A DELICADEZA

A POESIA, A DELICADEZA
Há cenas que me fazem lembrar a frase de Sartre de que ainda vivemos a pré-história da humanidade. E não se iludam com as inovações tecnológicas ou com os avanços da medicina. Nem com todos os inventos fantásticos do admirável mundo novo, entre eles a internet.
Espiritualmente recuamos às cavernas. Vulgaridade e violência. Depravação do gosto. Ataques sórdidos da covardia protegida pelo anonimato na web. Populistas grotescos no poder. E a cumplicidade da maioria.
O que justifica a nossa indiferença diante da miséria extrema de grandes parcelas da população do planeta? O que nos faz pensar que nada temos a ver com a violência que aterroriza o mundo e prova que pode nos alcançar em qualquer lugar, em qualquer cidade ou país.
Lembro Octavio Paz que me ensinou que erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama – pessoas, coisas, lugares, lembranças.
Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele – por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade – sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.
Devemos nos refugiar na poesia. Para Octavio Paz a poesia é a forma natural de convivência entre os homens. Sua crítica é um diálogo aberto com o mundo, sendo seu desejo “a busca de identidade da natureza humana na multiplicidade de signos.”
A crítica de Octavio Paz é antropológica e poética. Paz é poeta e crítico das civilizações. Acredita, ao contrário de Valéry, para quem as civilizações são mortais, que mesmo as aparentemente mortas estão vivas: os seus signos circulam nessa ars combinatória do universo histórico. Como tudo é linguagem, tudo significa.
E por tudo isso devemos escolher a delicadeza como parte essencial da condição humana. A delicadeza não é uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado – daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza.

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