De As coisas simples, palavras gastas, novas, prontas

Palavras gastas
               novas
                   prontas

Jessica Stori

As palavras se gastam pelo uso
e por mais que eu queime tutano e neurônios
não consigo inventar palavra nova
forte,
indestrutível,
para dizer eu te amo.

(Palavras gastas em As coisas simples de Fábio Campana)

            A poesia, mesmo quando fala do cansaço por sua tentativa em inventar, faz algo novo, diferente, comunicável pelo som que corre em nosso corpo. Penso a poesia a correr por todos os lados, não se restringindo à cabeça. A poesia é possível também quando vista, lembrada e falada. Quando voltamos à voz para entendê-la. E então, refeita, transformada, outra. Para dizer tudo mais uma vez e novamente, o inventado que tenta de novo. As palavras gastas se esforçam e criam através do cansaço e dos sentimentos gastos. É da procura e do encontro que repetidamente o novo aparece. Voz e poesia, um compromisso que reverbera em criações.

            Foi no Mafalda, café, bar e bistrô, no dia primeiro de agosto, que se encontraram corpo e poesia. Se é possível separar. Foi a partilha entre a poesia de Fábio Campana e a voz do ator Rafael Camargo. O livro em mãos era As coisas simples, último livro de poemas de Campana, editado pela Travessa dos Editores, em janeiro de 2019. Numa noite de luz aquecida, um tom quase contínuo de fim de tarde, numa possibilidade de jardim em meio às paredes, música e companhias de ouvidos e sensibilidades apuradas.

            As coisas simples, as mais intensas e óbvias, guardam toda a nossa atenção. Foi o que aconteceu com Rafael Camargo em seu “mergulho de cabeça” na poesia de Campana, como lembrou. Um mergulho de cabeça que se fez da coragem em se ver refletido e logo emaranhado em tantos pontos de visão e de escolha. O ator, que está em contato com as pulsões do corpo, que se apropria de vozes e personalidades para ser outro, concordou com Susana Volpi quando no prefácio do livro disse: “Tudo que um homem precisa saber já está, de alguma forma, dentro dele. Os que têm a coragem para vasculhar os próprios caminhos e revelar seus pensamentos mais íntimos acabam por nos servir de guia, a traduzir nossas próprias descobertas.” O que está dentro, o abismo, a queda e a possível volta em triunfo.

            Seu mergulho de cabeça, “cabeça de ator”, como mesmo diz, foi de intensidade no desapego e na coragem, mesmo quando afirma não ser a mesma intensidade da entrega de Fábio. De toda forma, conclui “experimentei medos, coragens, vontades, desejos, frustrações, fraquezas e grandezas. Intensidades de uma enorme vida. Aprendi num estranho sopro no coração que é urgente e necessária a poesia todos os dias. Exercitar as palavras flores, experimentar os espinhos sem mágoa e sorrir, sorrir das ‘coisas simples’”.

            Camargo viu a complexidade do contato uma “enorme vida”, essa que pode ser sentida no tempo de um sopro. Sopro que alerta da urgência em se ver e ouvir poesia todos os dias. O ator e o poeta. São os conhecimentos simples que invocamos quando damos corpo à poesia. Esquecidos, gastos, mas prontos.

            Ou também entramos em contato com a experiência limite observada: “Pulsos presos aos tornozelos, / barra de ferro entre os braços/ e as dobras do joelho. / O cu à mostra / voz escura do algoz da hora/eletrodos nas têmporas, no saco, no pau, no ânus. / Ânus? No cu. / a cabeça pendida para trás, / olhar inverso/o mundo ao contrário”. O concreto, a dor possível de ser lembrada agora, os gatilhos, tão delicados, ali, expostos. A coragem ou o medo eterno. A possibilidade de cura. Ou só um poeta a trabalhar.

            As coisas simples, tantas, mostra o processo na busca também pelo conceito, pela compreensão da perfeição em linguagem. E constata, a rir, que estava ali, nas coisas simples, nas palavras gastas, na dor madura, ainda dor, o tempo todo. “Aqui, onde o abandono dói” e também no silêncio que grita: “você não está só / o vasto mundo rui por dentro. / Sou filho da dúvida que persiste / lutador derrotado, posso eu / me reerguer e retornar à luta?”. Sempre e de novo, o retorno, o eterno, o ensaio vivido, a vida como ensaio, como mostra. As palavras gastas não cansam, estarão sempre prontas para dizer. Foi como aproveitaram poeta e ator.

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