O guardador de fantasmas

Jamil Snege
Um osso entalado na garganta. Há quase trinta ano. Vez por outra você para diante do espelho, abre a boca, examina o osso, tenta retirá-lo, mas desiste. Suspeita que a dor da extração será pior do que conservá-lo ali, quieto, feito um implante, tão em encaixado que uma rede de vasos irriga como se fosse parte de sua própria anatomia.
Mas é uma prótese, um corpo estranho. Você tinha dezenove anos quando o embutiram ali. O adulto sobreviveu, resignou-se, mas o jovem, que ficou lá atrás, considera de uma violência inaudita a experiência que lhe impuseram. Você tem todo o direito de deslizar para dentro da maturidade. Mas há um momento, nesse percurso, que nos tornamos pai do jovem que fomos um dia. Seus sonhos nos perturbam. Suas dores e frustrações, irrompem em nossa carne como punhais que nos dilaceram de dentro. Há um momento do percurso, que nos tornamos filhos do adulto que somos hoje.
Fábio Campana, pai, e Fábio Campana, filho, marcam um encontro na casa adormecida. Madrugada após madrugada, frente a frente, entregam-se à penosa faina de destecer ponto por ponto a trama da vida. Mas não se detêm no ponto em que se fundem num só. Recuem em direção à Infância, invadem-na e lá – onde  se instaura a memória – reencetam o caminho da volta. Pior o retorno, pois já não se vêm sós. Uma corte de fantasmas os segue. Estavam desde sempre. Porém agora, libertos da trama que os imobilizou no tempo, exigem carne e voz, agridem e acariciam, acusam e redimem. Um doce perfume de mulher, o hálito pestilento do inquisidor, a voz melíflua que verte do confessionário – os fantasmas estão soltos, desnovelados e desgovernados pela sala.
Hora mais difícil. Retecer, perpassar com o fio do discurso, os espectros, ordená-los em nova urdidura, ora no território livre da ficção. O guardador recolhe as reses extraviadas. O osso da garganta é flauta que se liberta – e o que temos em seguida é música. Contida, às vezes entrecortada por um soluço, porém um feixe polifônico que arrasta em seu caudal, um dos tempos mais negros da história. Que tempo é esse? Perguntarão os mais jovens e os de curta memória. O Guardador de Fantasmas lhes dirá, através de um romance denso, escrito com maestria, e desde já a peça mais pungente que a literatura brasileira produziu sobre aquele período. Quem duvidar que leia. Os editores não se responsabilizam por eventuais ossos entalados na garganta. 

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