Inventário de uma desilusão

Wilson Bueno publicou no jornal Estado de SP em 2010, pouco antes de morrer, sobre meu livro Ai.

Depois de O Guardador de Fantasmas, do inventivo O Último Dia de Cabeza de Vaca e da alta voltagem de Todo Sangue, Fábio Campana retoma, com o inquietante romance Ai – desde já uma das melhores ficções publicadas no Brasil neste 2007 -, o seu inventário de sombra e desassossego. Para quem, como Luís, protagonista e narrador do livro, inexiste o presente e muito menos o futuro, há que se pensar o passado feito aqueles que, só pela via da memória, alcançam recompor uma vida em pedaços. Ao final e ao cabo, possivelmente reste alguma coisa para além das perdidas ilusões.

Daí a obsessão pelo ido e o vivido neste autêntico “romance de formação” (o nunca assaz louvado bildenroman) com que Campana nos surpreende ainda outra vez, senhor de seu ofício e da engenhosidade não pequena que toda prosa digna deste nome pede e reclama. A partir de um entrecho aparentemente simples, o que temos em Ai são os retornos do narrador Luís à casa paterna, em Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira, no exato cenário onde o passado vige feito um bicho que resiste ao andado das horas. Triunfa ali, como não poderia ser de outro modo, o passado do passado e outro passado ainda, mais remoto, o dos primórdios da fundação da cidade, 18 anos depois do fim da Guerra do Paraguai, por homens broncos e decididos, mas capazes ao menos de uma “ponte” com o futuro. Ao pobre-diabo Luís, professor de História às voltas com o eterno adiamento de uma tese acadêmica, nem isso.

E se ele, o futuro, existiu um dia, já nasceu bichado sob o sonho evangélico de um mundo mais justo e mais equânime, pelo viés da utopia socialista que animou o melhor da geração que aí está, sexagenária ou quase – o mais das vezes, frustra e vã. Não, senhores, não pensem encontrar neste livro quase nauseante – pela densidade que a tudo comove e petrifica -, uma fresta que seja na direção da esperança. Não há esperança para quem perdeu de vez o futuro. Na casa da infância, além do pai, tão dúbio quanto ausente, e da mãe protetora do legado espiritual da família, mesmo que isso custe varrer sob o tapete as mais indizíveis sujeiras morais de lúbricos parentes, como sói acontecer nos clãs pequeno-burgueses de hoje ou de outrora, Luís bate de frente com as origens. O irmão Carlos, um influente assessor de políticos nascidos das cinzas da resistência à ditadura militar brasileira, tem poder e prestígio nas mãos, mas não logrou igualmente se desvencilhar da gênese, sempre primeva e desde sempre corrompida.

Também na casa de Foz encontram-se os diários do avô Vithorino Tharless de Anforena, que a mãe, ciosa dos pertences da família, vigia atenta e não permite que da casa saia. Ali foi escrito num espanhol arrevesado e difícil e ali há de ficar até o último escombro ou a derradeira traça. O atormentado Luís o revisita, a cada vez, tentando encontrar, secretamente, naquelas páginas comidas pelo tempo, a razão de tudo. Desnecessário lembrar que também nas anotações de Don Vithorino as desrazões do clã modesto jamais serão encontradas. Proposital ou não, o fato é que o narrador deste quase aflitivo inventário romanesco se chama Luís. Em nada diferente daquele outro Luís, o da Silva, que por amor à frívola Marina, mata Julião Tavares, no clássico Angústia, de Graciliano Ramos. O Luís, de Fábio Campana, não fica atrás da torturada e torturante personagem nordestina. Ainda que Marta seja só mais uma… Em ambos os casos, o mundo estreitou-se consideravelmente. E, sem coragem para o suicídio, ambos roem-se a si mesmos com igual, paciente e obstinada volúpia.

Luís e Carlos. O tema dos dois irmãos é, sabemos, um tema recorrente da grande tradição literária. Entre nós, o exemplo mais canônico (ou canonizado…) é Esaú e Jacó, de Machado de Assis e, mais recentemente, Dois Irmãos, do sempre instigante Milton Hatoum. Agora, Fábio Campana, com Ai, mexe de novo nas úlceras incicatrizáveis dessas relações viciadas pela raiz – pólos antagônicos de uma mesma sonâmbula origem. Se Luís autoriza a si mesmo uma visão descrente da vida, afim com o niilismo existencialista de um Sartre ou de um Camus, Carlos anima-se e agita-se numa azáfama também sem propósito e nenhuma esperança. Quer o osso do poder, a influência sobre as provincianas figuras de alto coturno do país recém-democratizado. Um e outro, não esquece Fábio Campana, são frutos do mesmo ventre e ninguém nasce impunemente desse caudal de bestialidade e angústia, febre e medo.

Sim, senhores, ao se dar em dois planos ficcionais, Ai é tributário da origem; de todas as origens. E no que me parecem os melhores momentos narrativos do livro, Campana recupera os entreveres do surgimento de uma cidade, oficialmente fundada em 1914, mas nascida dos escombros de uma guerra que ainda hoje nos envergonha e humilha – desde a rendição paraguaia em Cerro Corá, em 1870, ali onde as tropas leprosas e maltrapilhas de Solano Lopez só então entregaram os pontos frente ao Exército imperial do afetado Conde d?Eu. Os livros que estudamos na escola não contam da história nem o começo… Fábio Campana não mente e não tergiversa – 18 anos depois, precisamente em 1888, na foz do Rio Iguaçu, o passado já começa a nos contar uma saga sem futuro.

Importante aduzir que em Ai, ainda que a fronteira seja um dado, digamos, do real – concreto e geográfico -, pelas mãos inventoras do autor a fronteira dentro da fronteira sugere uma lasciva forma de aproximar o inaproximável e de dividir o indivisível. Carlos e Luís. Luís e Carlos. Dois irmãos, que são? Dois inimigos. Mesmo que movidos por ternura e amor atávicos, sob o chicote dos laços de sangue, o que se impõe é o ovo – a mesma patética origem, ela própria roída por dentro, desde sempre, desde a primeira vez. Outro dado precioso de Ai, podemos destacar, é a linguagem. Ardilosamente contida, mesmo nos momentos da mais exasperante poesia, mantém-se atenta, ao longo de todo romance, a que não extravase a escrita dos apertados limites que toda boa prosa exige.

Evidência segura de que inexiste “poesia em prosa” que não seja, em última instância, nada mais que “poesia” mesmo, sem eufemismos epistemológicos; e que toda prosa que se preze, por mais “poética”, há que se render, no tecido da escrita, à habilidade no manuseio da narrativa. Claro que não estamos defendendo aqui, veja-se bem, nem funâmbulos entrechos nem a gasta tradição do enredo, esta invenção do século 19. E são justamente os desenredos de Ai que criam a prosa mais imensa. Livro oportuno e audacioso, ao nos colocar frente a frente com o jugo do passado, Ai descortina, por paradoxal que seja – e toda grande arte terá no paradoxo o seu maior enigma -, as dobras do futuro, nem que seja como severo aviso de advertência.

Eu e Wilson Bueno em um dia antigo do passado.

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